A Seven Days entrevista o fotógrafo de publicidade Jorge Príncipe que comemora 30 anos de fotografia profissional. JP fala um pouco da sua trajetória e resolveu organizar esse ano um Workshop com o objetivo de explorar o universo da fotografia de publicidade de forma prática e eficiente discutindo na prática a montagem de iluminação adequada para diversas aplicações com ênfase na otimização de equipamento e espaço. Buscando melhorias com eficácia direta nos resultados de pré e pós-produção.Revelando quatro estilos de iluminação e alguns segredos da profissão e do mercado publicitário.
Há quanto anos você é fotógrafo?
Sou fotógrafo desde sempre! Ganhei minha primeira câmera aos 11 anos e dei meus primeiros clicks nas pistas de skate e na praia, fotografando surf mas, foi só aos 15, 16 anos que comecei a trabalhar em um estúdio propriamente dito.
Porque a fotografia?
Lembro que na minha adolescência os outros garotos curtiam muito o desenho livre e eu não tinha habilidade com os lápis, além de ser um pouco daltônico. Como sempre gostei da câmera e apaixonado por revistas de surf e skate, percebi que com a fotografia eu havia encontrado uma forma de me manifestar. Montei meu primeiro laboratório preto e B&W em casa aos 13 anos.
E o começo profissional?Um amigo me contou que o laboratório que revelava os filmes da agência onde ele trabalhava precisava de um estagiário e lá fui eu, me candidatar para a vaga. Eu lavava tanques, preparava químicos de revelação, cuidava da organização do laboratório.
Além de fazer muitas entregas de slides em produtoras de cinema e agências de publicidade e modelos.
Com o tempo passei para a revelação E6 e com a saída de um dos assistentes do estúdio que ficava no mesmo prédio, fui promovido a 3º assistente - um nome polido para o cara que pinta fundo infinito, arruma a bagunça, busca café e nunca vê as modelos sendo fotografadas.
Você já se considerava um profissional nessa época?
Não! Eu não me sentia preparado para assumir tal postura!
Quando me perguntavam o que eu fazia, sempre falava que era produtor fotográfico com pretensão de ser um fotógrafo profissional respeitado. Sempre enxerguei longe, as inúmeras possibilidades desse mundo artístico e para me considerar um profissional, eu sabia que precisava de mais.
Então quando essa postura foi adotada?
Ao completar 19 anos, decidi seguir rumo à Itália para estudar fotografia e ser assistente de algum grande mestre.
Naquela época nossa única referencia eram os livros importados do tipo WORKBOOK.
Fiz uma lista de nomes e endereços de fotógrafos que admirava e lá fui eu para Milão, bater de porta em porta em busca de uma oportunidade - mesmo que fosse pintar fundo só para ver os mestres trabalhando.
Conseguiu?
(Risos)... O mais engraçado é que quando fui para a Itália, tinha a pretensão de me tornar fotógrafo de moda e depois voltar para o Brasil e ser fotógrafo da Abril.
Mais a única vaga que consegui foi em um estúdio de Still Life, com um fotógrafo que era especializado em bebidas e trabalhava com câmeras grande formato 8x10 e 4x5.
E você voltou a fazer produtos?Alguns chamam de fotos de produtos, eu prefiro Still Life.
Parto do princípio da construção da imagem a partir da luz.
Veja...a reação de cada objeto em relação ao brilho e a sombra, gera uma forma e atribui vida à esses objetos. Não importa se estamos falando de um copo de água, uma garrafa de bebida, um carro, avião ou uma modelo. Eu havia aprendido os verdadeiros “ingredientes” para se compor a verdadeira arte da fotografia: luz e composição.
Percebi, em Milão, que o verdadeiro fotógrafo não é o cara que aperta o botão, mas sim, mais sim o responsável por planejar, analisar, decidir e enfim dar OK!
Para mim, o fotógrafo é o maestro da composição visual. Foi então que descobri a verdadeira fotografia de respeito.
E como foi a volta ao Brasil?
Quando voltei tudo que eu queria era poder iluminar!
Montei meu primeiro estúdio e me especializei em fotos de still para publicidade e faço isso até hoje.
E a fama?
(Risos)...Fotógrafos de Still não tem fama. Nós somos anônimos. Ninguém nunca pergunta quem fez aquela foto da Coca-Cola, ou de um Relógio ou de um Carro.
Tente fazer uma pesquisa nas ruas pra saber quem o público conhece. Garanto que a maioria que responder, vai falar JR Duram (por conta da Playboy) e Sebastião Salgado (por conta da Globo) (risos).
Na minha área, o foco é outro! As pessoas simplesmente ficam fascinadas com a imagem e consomem o produto e esse, é o nosso objetivo: Transformar coisas simples do cotidiano em objetos de desejo. Tanto faz se é um celular ou uma caixa de sabão.
Mais e todo esse seu trabalho com modelos?
Mesmo visualizando minha fotografia como Still Life, fiz muitos catálogos de moda, muitos books e ensaios autorais.
Certa vez encarei um trabalho de fazer mais 350 books para um concurso. Nós transformávamos cerca de 8 meninas por dia, trabalhando em alguns dias 18horas consecutivas.
Isso é o máximo e prova o dito: “A prática leva a perfeição”
Por isso tantas fotos de bebidas e alimentos em seu portfolio?
Essa é uma paixão onde consigo reunir as coisas que mais gosto. Adoro fotografar alimentos e amo cozinhar. Adoro uma boa mesa de bar com uma iluminação apropriada para então, poder fotografar com grandes Barmans.
Cada garrafa ou drink é como uma pessoa, ou seja, sempre você esbarra em um problema e tem que botar a cuca para funcionar para criar a luz perfeita. Adoro desafios e a complexidade em montar uma cena perfeita me motiva sempre.
E hoje como você se posiciona?
Com o passar do tempo fui sentido uma necessidade maior de me expressar e fui me aperfeiçoando em várias áreas dentro de meu Universo artístico e criativo.
Acabei virando um Multi-tarefas da publicidade e do marketing. Tornei-me diretor de arte, Web Designer e agitador cultural. Além de prestar assessoria de marketing na criação e formação de identidade visual de várias empresas e produtos.
Minha inquietude e anseio por inovar nesse Universo me levaram para a área da criação e do design.
Eu nunca gostei de colocar fotos boas em artes ruins!
Hoje eu cuido da concepção de cada projeto, desde o planejamento estratégico de mídia até o produto final seja ele um site, catálogo ou anúncio.
(Risos) Você é como um One-Agency-Man?
(Risos)...Eu não diria uma agência mais sim, um estúdio de idéias que parte de um conceito/composição visual para dar soluções e resultados.
E essa história de agitador cultural?
Pois é! Essa minha inquietude “questionadora” me impulsiona a querer fazer mais. Já participei de várias exposições coletivas e individuais e também de vários projetos culturais e artísticos.
Durante muito tempo mantive um portal no formato revista eletrônica de fotografia a PhotoArt Magazine.
Nesta época eu abria espaço para jovens e velhos talentos mostrarem suas fotos e exporem suas idéias, isso me incentivava e me instigava muito pois sou e sempre fui a favor de disseminarmos os conhecimentos ao mundo e não retê-los como muitos, infelizmente, fazem.
É verdade. E a PhotoArt? Ela ainda existe? A revista não! Mais recentemente estou muito envolvido com as redes sociais e atendo vários clientes nessa área. Desenvolvi um projeto web onde consigo integrar todas as plataformas de mídia em um mesmo site. ou seja, toda a rede integrada em um lugar sitio.
E isso me fez entrar a fundo no universo dos Blogs, Facebook, Twitter e outros.
Ai surgiu a idéia de renascer a PhotoArt em forma de grupo de discussão dentro do Facebook.
Criei um grupo onde os fotógrafos além de postar suas imagens, são incentivados por nós, a despertarem o pensamento de um fotógrafo.
Enquanto em outros grupos as pessoas estão preocupadas em criticar ou se autopromover, na PhotoArt, queremos justamente ao contrário. O espaço foi criado para promover os fotógrafos e compartilhar idéias e experiências incentivando assim, tanto os novos a despertarem o olhar crítico quanto os velhos, com as novas possibilidades da atualidade. É a união entre dois mundos.
Bem jorge, e o que você pode nos dizer a respeito de seu futuro?
(Risos)...Futuro?
Surf, sol, bons Martines e uma boa mesa seja ela através da minha câmera ou de meus olhos.
Esse mundo artístico sempre estará presente na minha vida e uma das minhas idéias, é abrir um Photo Bistrô - representando o melhor dos meus estudos aplicados nessa proposta - e explorar uma das coisas que mais gosto na vida: Cozinhar, beber bem e sentar com os amigos para contar e ouvir boas histórias.
Também pretendo fazer desse espaço um local para exposições e palestras. Quero ver o mundo virtual da PhotoArt transformando-se em mundo real.
E a aposentadoria? Você pensa nela?
Não!!! Eu costumo dizer que o meu fim, quando ficar bem velhinho, tem que ser em um click ou contando histórias. Os Clicks da minha vida (risos).
Mas, como disse, quero cuidar dos meus outros projetos citados acima.
Quero passar para os que estão começando minha experiencias e ver a galera nova clicando com conceito e qualidade.
Jorge, muito obrigado! Para concluirmos, defina fotografia em três palavras.
PERCEPÇÃO DE LUZ, INTELIGÊNCIA CULTURAL SEM PRECONCEITO E CORAGEM DE ARRISCAR E FAZER DIFERENTE - SEMPRE.